domingo, 12 de maio de 2013

Pracinha

A pracinha do bairro ainda mantinha os mesmos habituais frequentadores, sendo esses vendedores de balas, senhoras elegantes com trajes chiques, crianças cujos pais permitiam-nas brincarem ao redor do coreto e os velhos moradores de rua. Eu sempre passava por lá a caminho do trabalho ou no horário de almoço quando ia pagar contas no banco das redondezas, mas, naquele dia, no horário da missa dominical, ela despertou minha atenção, o que me obrigou a sentar em um banquinho para contemplá-la.

Na entrada da igreja eram dois os moradores de rua, com seus cobertores sujos compartilhados com alguns cachorros, fiéis companheiros de miséria. Além dos animais e da sujeira, um item que os homens possuíam chamava a atenção dos transeuntes: uma velha Bíblia Sagrada. Passando em frente aos mendigos, as beatas chegavam à igreja em linha contínua, discutindo algum assunto da paróquia, ficando cada uma lado a lado nos bancos, logo na entrada do edifício religioso. As jóias que adornavam os pescoços das senhoras brilhavam e contrastavam com a sujeira dos mendicantes rezando do lado de fora da igreja: uma crença dividida por uma parede de concreto. 

A fé religiosa que as mulheres praticavam em oposição à esperança por dias melhores daqueles homens me fez pensar em muitas coisas: importa tanto assim fazer parte de uma entidade religiosa para obter paz espiritual? Não é a igreja que agrega todos os cidadãos, sejam esses de classes econômicas diferentes? Será que aqueles pobres se sentiam inferiorizados a ponto de não entrarem nela carregando sua velha Bíblia de páginas amareladas? Por eles não terem jóias e brincos de argolas?

Ao final da missa, todas as pessoas foram para as suas casas, mas só aqueles homens continuaram naquele que era o seu lar: a pracinha do bairro.


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